Da ‘área de risco’ ao abrigo temporário: uma análise sociológica dos conflitos subjacentes a uma territorialidade precária

No Brasil, no meio urbano, tornam-se freqüentes as disputas territoriais nas quais as populações empobrecidas sofrem recorrente contestação do seu direito de morar. Tal contexto merece a análise sociológica que, de um lado, desvele a esfera coletiva das representações do território como passível da produção de um lugar; de outro, que explicite as formas de controle institucional que, atualizando concepções higienistas, negam os projetos de vida que ali se pretende estabelecer. Numa perspectiva de classe, o Estado evita que as tensões sejam explicitadas ao designar como ‘área de risco’ o projeto alternativo de territorialização que uma população empobrecida produz para si como resultado da ausência material, simbólica e social dos elementos constituintes da cidadania. A denominação ‘área de risco’ constitui-se num discurso de deslegitimação da produção social do lugar e desqualificação das reivindicações do grupo pela implantação do equipamento público ali ausente. Quando a precariedade territorial, reflexo de uma sociabilidade deteriorada, encontra ameaças naturais, como as chuvas, e decorrentes efeitos, como enchentes e deslizamentos e afins, forjam-se as condições propícias para a desterritorialização definitiva do grupo. A solução alocativa provisória àquilo que toma o entendimento de ‘desastre’, o abrigo temporário, apresenta-se como um aspecto complementar da negação do conflito. 2008, 27 páginas.

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